domingo, 28 de setembro de 2014

Carta ao Nada

Senti a sua falta. Há quanto tempo não nos encontrávamos mesmo? Uns três anos posso dar certeza. Mas por que voltou? Certo. Talvez não esteja sendo sincero contigo. Eu quem retornei. Não queria precisar voltar. Confesso. Acontece que, apesar de o tempo nos consumir a todo instante, indiferentemente nos empurrando para cada vez mais perto do abismo, as nossas percepções são circulares. Da última vez eu não sabia o que seria de mim, depois me acomodei e agora voltei. Voltei para você. Voltei para me encarar. E sei que um dia voltarei novamente, mesmo não querendo aceitar este fato. Peço-lhe desculpas pela verdade inconveniente, mas você, melhor do que ninguém, sabe do meu desespero. Vim pedir socorro. Quer saber, esqueça de tudo o que disse até agora. Me dê um abraço. Obrigado. Estou um pouco melhor agora. Deixei tanto para trás que me esqueci de qual caminho chamam de frente. Não vim para te pedir conselhos ou para que me mostre a direção a seguir. É na perdição que os pensamentos florescem, onde a dor me acolhe e as lágrimas imaginárias se libertam. Imaginárias porque estão contidas. Sem conseguir desprendê-las resta-me a ilusão de que as sinto, e não é porque não caiam verdadeiramente que deixo de senti-las sobre o meu rosto, a banhar as feridas do meu autoflagelo. Às vezes penso que está tudo bem e que tudo não passa de uma grande bobagem. Mas não é verdade. É até uma grande desonestidade anunciar tal inverdade. Nada nunca está bem. E se o nada nunca está bem é porque, oras, me coloco na própria condição do nada. Embora isso não tenha me impedido de ter vindo ao seu encontro. Não vou me alongar. Agradeço-lhe essa breve atenção. Era tudo que precisava. Se tudo der certo pelo menos mais três anos se passarão. É o que espero, ao menos. Conceda-me, com toda sua condescendência mostrada até aqui, apenas um aperto de mão como despedida. 

domingo, 15 de julho de 2012

WE FOUND LOVE


Há quase um ano o nosso amor se transformou e nos tornamos esses irmãos loucos e tão moralmente inadequados. Os três unidos pelos corações partidos. Não tinha sido fácil andar sobre as pedras encontradas no meio do caminho e encarar as consequências das nossas inconsequências. E assim, em estradas tortuosas, erradas e inaceitáveis, nos encontramos perdidos no meio de um labirinto. A água que ardia ao ser engolida nos embriagava com o prazer da amizade e da felicidade instantânea. Era o elixir que curava nossas cicatrizes e amenizava as nossas dores. A fumaça em meio aos copos embaçava a nossa visão. Mas não tínhamos o que temer. Estávamos juntos. E juntos encontramos o amor em um lugar sem esperança. 

domingo, 15 de abril de 2012

Produto

O que você me oferece em troca? Qual a vantagem em comprar as suas ideias? Relações humanas são permeadas pela conveniência. Nada é vendido sem lucro, nada é dado gratuitamente. Ontem nós nos encaixamos. Hoje somos peças perdidas potencialmente substituíveis. Sentir-se usado faz parte. Eu também te usei.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Escolhas


Lá estava você diante de mim. Naquele instante um buraco se abriu em meus pés e, conforme eu tanto havia desejado, pude cair sobre o abismo da dor e da angústia. Confesso que não foi tão fácil quando imaginava. Deparei-me em uma situação completamente nova e patética para mim. E lá estava eu implorando como disse que jamais imploraria.
Apesar de o tempo nos empurrar ao caminho da morte com a frieza que pensava também possuir, este se aproveitou do sofrimento, se embebedou de minhas lágrimas e pesares e assim diminuiu a velocidade da minha queda. Este é o seu papel, fazer com que tudo sempre siga em frente; e no fim tudo o que sempre resta são as memórias.
Ao poder finalmente colocar os pés no chão e assim sentir a firmeza da terra, o vento pôs-se a soprar em minha direção. Forte o bastante para poder me levar, mas fraco o suficiente para eu ter a escolha de manter os pés firmes.
Eu disse que estaria aqui te esperando, mas você nunca disse que me esperaria. Sigo então sendo empurrando pelo tempo, andando na direção oposta ao vento. Às vezes me deixo ser carregado por ele e então retorno aos caminhos já percorridos; caminhos feitos de lembranças.
Se um dia achássemos o caminho de volta, nós o trilharíamos?

sábado, 19 de novembro de 2011

Círculo


Cansado do agir-como-se-deve, resolveu agir-como-quisesse. Começou quebrando tudo, destruindo cada pedaço do seu quarto, cada móvel que compunha aquele refúgio. Sentiu o sangue quente sobre as mãos machucadas. Como era boa aquela dor. Não havia espaço para pensar em outra coisa além da dor e da destruição. Deitou no chão e olhou para cima. Ficou lá até que a escuridão expulsasse toda a claridade e o sangue parasse de jorrar. Pensou que fosse morrer ou que já estivesse morto. De fato uma parte dele já estava morta havia algum tempo, e esta tentava com todas as forças levar consigo a outra que ainda resistia à vida. Morrer seria o alívio final. Mas o fim não se aproxima se você o busca com tanta persistência. Ainda vivo, aos poucos a escuridão foi o envolvendo e as mãos em carne viva já não aliviavam aquela angústia. As lágrimas caiam encharcando o chão; e de tão salgadas amargavam ainda mais aquele pesar. Elas não serviam como libertação, eram os sinais enviados pela alma, que não podia mais suportar aquela situação de desespero. “Quando foi que tornei no que me tornei?”. Era o que o consumia. Não havia caminho à frente para se seguir já que a esperança o enlaçava e o empurrava para trás em um rumo cego dentro de um túnel escuro onde jamais poderia ser avistado um feixe de luz. Encolheu-se em posição fetal e finalmente conseguiu falecer naquele instante. Sem sonho, sem dor, sem esperança, sem angústia. O vazio era a melhor droga para a cura da dor física, no entanto funcionava como uma pequena dose de ilusão para o que verdadeiramente doía.
A luz machucou os seus olhos e estes forçadamente se abriram. Colocou-se de pé e quando se acostumou à claridade pôde observar a bagunça que havia feito. Naquele mesmo instante sentiu as feridas nas mãos, quase insuportável. Fez os curativos e foi arrumar o seu quarto. Depois de duas horas tudo estava em seu devido lugar.

sábado, 10 de setembro de 2011

A arte de transformar dor em palavras


Olho ao redor e não vejo. Tento escutar, mas não ouço. Aquele aperto por dentro, machucando... Coração vazio embalado a vácuo. Indefinição. Amor. Futuro. A dor da incerteza. E é escrevendo que tento me libertar. Escrever ao invés de chorar. Escrever chorando. As dores vão sendo liberadas a conta gotas: lágrima por lágrima, palavra por palavra... 








"I've been screaming on the inside and I know you feel the pain.
Can you hear me, can you hear me?"