sábado, 19 de novembro de 2011

Círculo


Cansado do agir-como-se-deve, resolveu agir-como-quisesse. Começou quebrando tudo, destruindo cada pedaço do seu quarto, cada móvel que compunha aquele refúgio. Sentiu o sangue quente sobre as mãos machucadas. Como era boa aquela dor. Não havia espaço para pensar em outra coisa além da dor e da destruição. Deitou no chão e olhou para cima. Ficou lá até que a escuridão expulsasse toda a claridade e o sangue parasse de jorrar. Pensou que fosse morrer ou que já estivesse morto. De fato uma parte dele já estava morta havia algum tempo, e esta tentava com todas as forças levar consigo a outra que ainda resistia à vida. Morrer seria o alívio final. Mas o fim não se aproxima se você o busca com tanta persistência. Ainda vivo, aos poucos a escuridão foi o envolvendo e as mãos em carne viva já não aliviavam aquela angústia. As lágrimas caiam encharcando o chão; e de tão salgadas amargavam ainda mais aquele pesar. Elas não serviam como libertação, eram os sinais enviados pela alma, que não podia mais suportar aquela situação de desespero. “Quando foi que tornei no que me tornei?”. Era o que o consumia. Não havia caminho à frente para se seguir já que a esperança o enlaçava e o empurrava para trás em um rumo cego dentro de um túnel escuro onde jamais poderia ser avistado um feixe de luz. Encolheu-se em posição fetal e finalmente conseguiu falecer naquele instante. Sem sonho, sem dor, sem esperança, sem angústia. O vazio era a melhor droga para a cura da dor física, no entanto funcionava como uma pequena dose de ilusão para o que verdadeiramente doía.
A luz machucou os seus olhos e estes forçadamente se abriram. Colocou-se de pé e quando se acostumou à claridade pôde observar a bagunça que havia feito. Naquele mesmo instante sentiu as feridas nas mãos, quase insuportável. Fez os curativos e foi arrumar o seu quarto. Depois de duas horas tudo estava em seu devido lugar.